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O pior lugar em que já me hospedei

A primeira vez que viajei sozinha e de avião foi em 2006, para apresentar um trabalho da faculdade em um congresso, em Itajaí, Santa Catarina. Na verdade, foi com uma amigona da sala, mas ela também era tímida e medrosa como eu. Não aproveitamos nada além do congresso. Ficamos em um hotel colado na universidade onde estava acontecendo o evento e nossas saídas se resumiam ao campus e a um shopping próximo ao hotel. A única vez que “saímos” foi para ir a Camboriú, num fim de tarde. Fazia um frio horroroso e estávamos de blusa de lã, inclusive. Pegamos um ônibus quase na porta do hotel, descemos na praia. Não tinha ninguém por lá. Ficamos com medo e só tiramos umas fotos e voltamos.  Enfim, nem um restaurante (comíamos na universidade e em fast-foods do shopping), nem uma volta na pracinha, nem uma esticadinha ao Beto Carrero. Nada. Se fosse hoje, provavelmente ia arrumar jeito de encaixar várias turistagens entre uma palestra e outra.

Euzinha apresentando o trabalho, em 2006

Euzinha apresentando  trabalho, em 2006

O que isso tem a ver com a tal pousada do título? Nada. Só estou contando para você ter uma ideia do quão inexperiente e jacu eu era.

Quase um ano depois da viagem para Itajaí, eu fiz minha segunda viagem sozinha. Eu tinha passado na primeira etapa de um concurso e a segunda etapa era lá em Brasília. Não tinha jeito. Eu deveria ir. Duas colegas de sala passaram também e a prova da segunda etapa delas era no mesmo dia da minha. Fiquei contente, pois achei que poderíamos dividir o hotel. Mas, não rolou. As duas tinham parentes lá e elas ficaram nas casas de seus respectivos familiares. Disseram-me que os apartamentos eram muito pequenos e que, infelizmente, não seria possível acomodar mais um hóspede além delas.

Comecei uma difícil tarefa de pesquisar um lugar para ficar. Precisava de duas noites. Chegaria no dia anterior à prova. Se passasse da segunda etapa, que era de manhã, teria uma terceira, no fim da tarde/início da noite. Voltaria para casa no dia seguinte. Não tinha parentes nem conhecidos por lá. Não tinha ninguém para me dar referências. Não existia Booking, nem Tripadvisor.  Só tinha sites como o Onde Hospedar, que compilavam os hotéis das cidades, mas sem avaliações de hóspedes.

Comecei a mandar e-mails para os hotéis e aos poucos as respostas foram chegando. Cada uma mais desanimadora que outra. Os preços eram bem mais altos do que eu imaginava. Aí parti para as pousadas. Os valores estavam bem melhores. Vi uma que era bem perto do local da prova, dava para ir a pé. Não agradei muito das fotos, mas era o que eu podia pagar. Minha mãe ficou apreensiva. “Ai, minha filha, tomara que não seja um prostíbulo!”

(Naquela época, eu ainda era estudante. Como tinha aula de manhã e à tarde – e até algumas noites na semana -, não era possível trabalhar. Fui ser bolsista de projeto de extensão para conseguir custear os gastos com estudos que, mesmo em universidade pública, não são poucos.)

E lá fui eu. Fomos no mesmo voo eu e minhas duas colegas. O tio de uma delas me deu uma carona até a pousada. Quando chegamos, ele soltou um “É aqui?!?!?!” tão, mas tão espantado, que acho que ele ficou com dó de mim.

Acho que hoje até eu teria dó de mim. A pousada ficava em uma avenida bem movimentada, no setor de habitações individuais. A recepção funcionava numa espécie de garagem e era separada da rua por um portão de correr, feito de ferro, que ficava aberto até tarde da noite.

Dirigi-me ao recepcionista, que conferiu meus dados e pediu o restante do pagamento das diárias (metade já havia sido depositada).  Havia uns homens sentados num cacareco de sofá na recepção-garagem e eu via pela minha visão periférica que eles não paravam de me olhar. De frente para o sofá tinha uma televisão.

O recepcionista me levou até a porta que dá para a sala, onde tinha uma grande de mesa de madeira e me disse que o café da manhã era servido ali. Mostrou-me também um computador com acesso à internet discada, que era para uso dos hóspedes. Vi uma escada e pensei que os quartos seriam lá em cima. Esperei que ele andasse, mas ele deu meia volta para a recepção-garagem. Não tinha notado que havia uma porta do lado da televisão. Ele a abriu e disse quatro palavras avassaladoras: Seu quarto é aqui!

– Aqui?! Prefiro um lá dentro.

– É o único disponível.

Já tinha pago, não tinha mais dinheiro e, sinceramente, tive medo de argumentar mais. Entrei e tranquei porta. O quarto era bem apertado. Tinha uma cama de solteiro com a cabeceira ao lado da porta. A lateral da cama ficava encostada na parede que era continuação do portão da garagem, ou seja, dava pra rua. Lá em cima, havia um pequeno basculante. O espaço que sobrava era correspondente à largura da porta. O pé da cama quase encostava na outra parede, oposta à porta. Ao lado do pé da cama, um guarda-roupas velho com duas portas estreitas, que eu tive nojo de usar por estar com cheiro de mofo.

A porta do banheiro ficava na parede oposta à da lateral da cama. Decidi tomar banho. Eu não me lembro se já sabia que o lugar não oferecia toalhas ou se levei por precaução. Mas lembro claramente que fiquei com medo de entrar no banheiro. Já imaginei que ouviriam o chuveiro ligado, invadiriam meu quarto e levariam todo o meu dinheiro. Mas aí lembrei que não tinha dinheiro. Então poderiam fazer algo contra mim! As palavras da minha mãe ecoavam na minha cabeça: Prostíbulo, íbulo, íbulo…

Arrastei a cama e bloqueei a porta com ela. Fui tentar tomar banho.

O banheiro teria um espaço ideal se eu fosse do tamanho da Barbie. Sério mesmo. Era quadrado, mas não devia ter nem um metro de lado. Era uma porta estreita, que fechava com um gancho velho, tipo este. De frente para a porta, estava a privada, com aquelas descargas de cordinha. Ao lado esquerdo da privada, sem nem uma cortina, até porque nem cabia, estava o chuveiro. E de frente para o chuveiro estava a pia. Visualizou? Vou tentar facilitar. Imagine um quadrado de menos de um metro de lado. Divida-o em quatro quadradinhos e ande no sentido anti-horário. O primeiro é o espaço para a porta sem maçaneta se abrir. O segundo é a privada. O terceiro, o chuveiro. O quarto quadrado, a pia. Ah! Claro, tinha um espelho daqueles de feira, tipo este, na parede da pia. Acho que deu para entender.

Não tinha um ganchinho sequer para pendurar a toalha no banheiro. Pendurei-a na porta. Aí, lógico, ela não fechava totalmente. Tentei me despir dentro do banheiro, no quadradinho número 1. Não dava, ficava relando no vaso e na pia. Voltei e deixei a roupa na cama.

Para ir para o quadradinho número 3, o do chuveiro, tinha que dar uma reboladinha e passar de lado entre a pia (quadradinho 4) e a privada (quadradinho 2). Posicionei-me corretamente no quadradinho 3, bem debaixo do chuveiro. Liguei-o. A água espirrou por todo o enorme banheiro. O chuveiro estava todo entupido e saiam pouquíssimos fios de água, que não desciam na vertical. Teria que ficar dançando para aproveitar a água, mas isso não seria possível devido ao pouco espaço. Na verdade, não dava para mexer muito no quadradinho 3, ou a perna batia na privada. Com muita paciência, prossegui no meu banho e ainda lavei os cabelos (faço isso todos os dias, pois são muito oleosos).

Em determinado momento do meu banho, girei o corpo e vi que minha toalha, que estava na porta, estava molhada. Um jatinho ordinário de água estava indo direto nela desde o começo. Acabei o banho, enxuguei com a toalha molhada e lembrei que precisava sair para dar notícias para minha mãe. Lembrei do computador perto da mesa do café da manhã. Talvez pudesse mandar um e-mail. Peguei os meus trocados, meus documentos e meu celular, um Nokia 1100, fechei a mala, a coloquei debaixo da cama, que já estava no seu lugar original, e abri a porta.

Confirmei com o recepcionista se poderia usar o computador. Entrei no MSN para tentar contato com alguém lá de casa. Conversei com o Guto (sim, já namorávamos em 2007) e com meu irmão e mãe. Para o Guto falei a verdade, que estava numa espelunca duma pousada, apavorada. Para minha mãe, disse que estava tudo bem, que a pousada era simples, mas estava tudo na mais perfeita paz e ordem. Era capaz da minha mãe ir a pé até Brasília para me fazer companhia.

Voltei para o quarto para lanchar. Ainda bem que eu tinha levado biscoitos e achocolatados na mala, assim não precisava sair.  Coloquei novamente a cama bloqueando a porta. Ouvi quando fecharam o portão de ferro, por volta das 23h. Aquela TV que ficava na parede do meu quarto, lá na recepção-garagem, ficou ligada até tarde.

Algo ocorreu com a Terra naquela noite e a madrugada teve uma duração bem maior. Algo como umas dez horas a mais. Ouvi passos na rua, carros passando e pessoas conversando toda a noite e parecia ser ali perto da minha janela.

De vez em quando alguém chegava e batia no portão. Vinha alguém e abria. Pelo menos tinham o bom senso de conversarem baixo. Eu ouvia, mas não conseguia entender o que diziam. A voz da minha mãe continuava: íbulo, íbulo, íbulo.

Cinco horas da manhã alguém bateu o portão insistentemente e com força.  Como demoraram um pouco para abrir, a pessoa começou a gritar lá da rua, que, não se esqueça, era na minha parede: “TEM VAAAAGA?”

Quando alguém abriu, ouvi a pessoa dizer que havia acabado de chegar em Brasília, tinha uma consulta médica às 11h e só queria dormir um pouco até o horário do seu compromisso. Pensei: “Eu também”.

Quando amanheceu o dia, fui tomar café.  Tomo mundo se sentava à mesma mesa. Havia mais cinco pessoas lá. Apenas falei um bom dia seco e comi meu pão francês com presunto quietinha. Pela conversa dos que ali estavam, vi que eram todos parentes de pessoas que estavam fazendo tratamento em algum hospital da cidade. Fiquei mais tranquila, hehehe.

Depois da prova, fomos almoçar em um shopping próximo, eu, as duas colegas e as outras meninas que conhecemos lá. Aproveitei para fazer umas comprinhas nas Lojas Americanas para abastecer meu frigobar imaginário. Descobri no almoço que todo mundo estava ou em casa de parentes, ou hotéis nos setores hoteleiros, menos eu. (Minha mãe morreu de dó quando eu contei isso. Para ela, a filha dela estava abandonada numa cidade desconhecida.)

Na volta do shopping, passamos no local da prova para vermos o resultado. A boa notícia era que eu tinha passado para a terceira etapa. A má noticia é que a prova era às 17h e ainda era 12h30. Minhas colegas foram para suas casas e eu voltei para minha cela para descansar um pouco e dar umas últimas relidas nas minhas anotações.

Quando acabei a prova, para o meu desespero, era noite! A pousada ficava só a três quadras, mas procurei um táxi, em vão.  Nunca andei tão rápido em toda minha vida. Em poucos minutos, talvez segundos, cheguei à pousada.

Conversei rapidinho no MSN, tomei um banho nos mesmos moldes do já narrado e comi meus biscoitinhos. Minha colega me mandou uma mensagem dizendo que seu tio, o mesmo da carona da chegada, me pegaria às 9 da manhã e passearia com a gente. Pensei um pouco se aceitaria esse convite, pois a diária se encerraria ao meio dia e eu queria aproveitar mais o conforto do hotel. Mas, como não conhecia Brasília, resolvi aceitar e fazer o sacrifício de perder três horas da minha diária.

A noite foi um repeteco da anterior, só que sem o moço escandaloso das cinco da manhã.

Às 9h, minha colega e o tio estavam lá, ele com uma cara de dó que dava dó. Fomos deixar minha mala na casa dele e depois passeamos com a prima da minha colega. Voltamos para o apartamento deles e o tio e a esposa insistiram até para que eu tomasse banho. Devia estar muito fedorenta. Muito sem graça, eu agradecia e dizia que não precisava, que não queria dar trabalho, aquelas formalidades de sempre. A verdade é que eu estava doida por um banho de verdade, mas estava com vergonha. Aí a tia, com muito jeitinho disse:

– Não é trabalho nenhum, Gê. Pode ficar à vontade! Eu sei que quando a gente fica em hotel, a gente não toma um banho gostoso.

O que eu ouvi: “Eu sei que na birosca que você ficou não tem um banheiro decente.” Com certeza, o tio havia contado para ela sobre a minha pousada. Acho que estavam com dó de mim.

Quando voltei para BH e contei para minha mãe, ela quase infartou, tadinha.

– Que dó da minha filha! Devia ter vendido minhas joias para pagar um hotel pra você!

– Que joia, mãe? Você não tem nenhuma!

– Ah é!

Bom, até hoje não sei se aquela pousada específica era zona ou não, porque ver ou ouvir algo comprovatório eu não vi, nem ouvi. Mas depois descobri que aquela região, onde havia outras pousadas semelhantes, era uma região de prostituição, então tudo indica que, além dos pés-vermelhos como eu e os acompanhantes de pessoas internadas, o local também devia ser frequentado por profissionais do sexo. Talvez fossem as pessoas que chegavam de madrugada.

Descobri também que aquelas pousadas eram irregulares, não tinham autorização para funcionar e que a população lutava contra a existência delas, já que ali era um setor de habitações individuais.

E, imaginem meu susto, quando fui pesquisar se tal pousada ainda existia para escrever este post, e me deparei com notícias de que as pousadas da região foram fechadas para todo o sempre-amém (veja aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), pois além de funcionarem como prostíbulo (íbulo, íbulo) era um local de consumo e TRÁFICO de drogas (essa parte minha mãe só vai saber agora).

Ainda por cima tinha o risco de ocorrer uma batida policial quando eu estava lá!

Até hoje essa história rende muitas risadas lá em casa, exceto por parte da minha mãe, que tem dó de mim até hoje. Temos várias piadas internas e o nome da pousada virou sinônimo de espelunca. Direto tenho que recontar a história para alguém. Acho que por isso que ela está tão fresca na minha memória.

Eu fiquei nessa pousada por puro desconhecimento e ingenuidade, embora o principal motivo tenha sido a pobreza. Não tinha ninguém que me orientasse e não existia essa facilidade de pesquisas que existe hoje. Mas, que me arrisquei, arrisquei.

A parte boa é que aprendi a ficar mais esperta e até hoje quando vou pesquisar hotéis e pousadas, desconfio se o preço está muito tentador (íbulo, íbulo, íbulo…)

Você já viveu uma situação parecida? Compartilhe com a gente aqui embaixo nos comentários.

P.S.:  Como você notou, eu continuo em BH e, portanto, não passei na última etapa do concurso.

Um momento feliz! Foto de 2007

Um momento feliz! Foto de 2007



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19 comentários em “O pior lugar em que já me hospedei

  1. Que aventura, hein Ge?! Kkkk Ainda bem que hoje tudo está mais fácil de pesquisar mesmo! Acho q eu entraria em pânico nesse “hotel”…ainda bem que já passou e hoje vc se diverte!

  2. Se vc tivesse comentado comigo! Teria dado umas dicas de pensões em Alto Paraíso de Goiás.Lá tem umas ótimas.E é pirtim de Brasólia.Belo conto!Um abraço!

  3. Olá, meu nome é Victor Reis. Parabéns pelo site, muito bem construído e com textos bem explicativos e criativos. Agora sobre a história da espelunca…nossa fazia tempo que não ria tanto kkkkkk até dos detalhes linkados morri de rir rsrsrsr. Continue nesse belo trabalho de divulgar momentos inesquecíveis de nossas vidas que comumente chamamos de viajar. Abçs!

  4. Sua história me fez lembrar de uma que passei.
    Eu e marido tínhamos um casamento para ir em Cabo Frio (RJ). A casa da amiga que nós ficávamos estava lotada de parentes dos noivos. Então nós procuramos uma pousadinha para passar a noite depois do casório (que foi lindo à beira da praia).
    Então a “pousada” era dormitório de caminhoneiros.Tinha um corredor largo e vários quartinhos. E ficamos em um pequeno (o único que sobrou), com a janela que não fechava direito e banheiro pequeno também, mas tinha chuveiro bom. Nos arrumamos lá e fomos para a festa. Na volta dormimos e quando fomos tomar o café da manhã (café e pão com manteiga), vimos várias pessoas do casamento lá também rsrsr Um segredo: colocamos uma cadeira no trinco da porta, se alguém mexesse, ouviríamos …
    Mas correu tudo bem.
    Beijos.

  5. Pingback: Porque não recomendamos o voo direto da Azul de Campinas para Bonito

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