A prostituta

Já se passaram mais de 20 anos e não consigo esquecê-la, muito menos todo o transtorno causado por ela. Até hoje, quando penso, meu coração fica apertado e sinto um nó na garganta.

Maldita situação! Maldita!

Estávamos brincando de “Mês” na calçada em frente à nossa casa, meu irmão mais velho, duas vizinhas e eu. Eu tinha uns oito ou nove anos de idade e era o menor dos quatro. Morávamos em uma avenida muito movimentada, então as possibilidades de brincadeiras eram reduzidas, mesmo na calçada. Bola, nem pensar.

Como quase sempre acontece com brincadeiras de criança, principalmente nessa tal de “Mês”, que não tem fim e é idiota, uma hora o tédio chega. Aí, ou troca a brincadeira ou então é briga na certa. No nosso caso, foi pior que briga.

As alfinetadas começaram com uma competição sobre quem tinha mais brinquedos, depois evoluiu para o que cada um tinha comido de mais gostoso no almoço, depois sobre qual pai tinha mais dinheiro, quem tinha mais beleza e por aí foi. Pequenas ofensas foram trocadas, como feioso, gorda, você é o mais burro do mundo, não existe ninguém mais baleia que você, até que eu, o menor e o mais inocente de todos fiz uma tremenda bobagem: chamei a menina de prostituta.

Antes de continuar, é importante esclarecer que eu realmente era inocente. Não faço a menor ideia sobre onde aprendi o tal xingamento e juro que não sabia o significado dele. Provavelmente o usei por causa da sua sonoridade ou porque parecia uma palavra forte, diferente dos xingamentos comuns, mas para mim não passava de um sinônimo de burra ou feia. Talvez chata.

Maldita hora! Maldito dia! Fim das discussões. Silêncio cortante. Começaram a me olhar como se eu tivesse assassinado alguém.

A menina quis me fuzilar com os olhos e começou a chorar.

A colega dela checou: – Você a chamou de prostituta?

Meu irmão deu a sentença de morte: – Vou contar para a mamãe.

O inferno começou naquele momento, pois imaginem que dos quatro, a única que não tinha raízes evangélicas era a menina que foi xingada. Até hoje escuto as vozes: – Ao invés de influenciar a pessoa e trazê-la para o lado de Jesus, você a chama de PROS-TI-TU-TA? Onde está o seu testemunho? Que ódio dessa palavra, “testemunho”, muito sem noção.

Fiquei sem entender nada, mas o clima pesou e tive que perguntar o que era uma prostituta.

– Você não sabe? Prostituta é…

Dispensável repetir a explicação, mas depois que entendi o significado tive certeza de que morreria assim que minha mãe soubesse. Fiquei tão sem graça que não consegui falar nada, nem mesmo me desculpar, não tinha perdão para o que fiz. O tempo fechou, cada um saiu caçando seu rumo e fui para casa junto com meu irmão. Quase sem ar, corri para o quarto e ele foi atrás.

– A partir de agora você vai ter que fazer tudo o que eu quiser, se não vou contar para a mamãe que você chamou a menina de PROS-TI-TU-TA.

Nem tentei argumentar e me defender dizendo que não sabia o que o xingamento significava ou que estava arrependido. Se com meu irmão o discurso não funcionaria, com minha mãe, ih… Impossível, era surra na certa. Apesar de ceder à chantagem diabólica e aceitar ser escravo, respirei um pouco aliviado pelo fato de poder adiar o momento da minha morte.

Vai que um dia ele esquece?

Mas os dias passavam e a coisa piorava. A vizinha que não foi ofendida, mas presenciou a situação, se encarregou de esparramar para todos os meus amigos da igreja a coisa horrorosa que eu tinha feito. Mais acusações e lições de moral: – É, Guto… Quem vê você com essa carinha de santo nem imagina as coisas que você faz!

Em casa era pior com meu irmão mais velho. Logo ele contou para meu irmão caçula e aí a chantagem passou a ser dobrada. Tiraram meu direito de ver TV, passei a arrumar a cama dos dois, revezava a quem entregava minha sobremesa e tudo o que minha mãe pedia para um dos dois fazer, eu tinha que entrar na frente e fazer por eles. Essa situação durou várias semanas e eu já estava profundamente abalado psicologicamente e também fisicamente. Às vezes ficava cansado e pedia misericórdia, ou então relutava dizendo que não ia fazer o que eles mandavam, mas o que eu ouvia era suficiente para mudar de ideia: – Se você não fizer, já sabe…

Como o ser humano é cruel! Mas tudo tem limite. Era domingo, tínhamos acabado de chegar da igreja e minha mãe deu as ordens: – Vocês vão arrumar o quarto – para os meus irmãos, – e você vem me ajudar com o almoço.

Ao que prontamente respondi: – Mãe, eu também vou arrumar o quarto e depois vou te ajudar. É rapidinho.

Mas não tinha conversa: – Não, é AGORA!

Assim que ela virou as costas, ouvi do quarto: – Se não arrumar minha cama, conto para ela.

Eu sabia que minha mãe queria que as duas coisas fossem feitas na mesma hora, nenhuma delas podia esperar. Então insisti com meu irmão: – Mas ela não quer deixar!

– Vou lá contar agora.

Corri e peguei o lençol para começar a arrumar a cama dele, mas um grito veio da cozinha e tomou conta da casa: – Gutoooooooo!!! Vem agora!

Olhei para meu irmão com cara de condenado, suplicando piedade e larguei o lençol, ele reagiu apenas com um meneio de cabeça em tom de “Você fez sua escolha”…

Pensei que ele não seria capaz, pois viu que eu não tinha condições de atendê-lo, por causa da ordem que minha mãe acabara de dar.

– Então conte, tenho que ir – e saí do quarto.

Ele foi atrás de mim, simples assim: – Mãe, preciso contar uma coisa. Sabe a fulana? Esses dias a gente estava brincando na rua e o Guto a chamou sabe de quê? PROS-TI-TU-TA.

Desgraçado! Então eu fiz tudo à toa! Meu coração acelerou e fiquei gelado. Não havia espaço para explicações, minha mãe não aceitaria nada que eu dissesse. Dona de temperamento explosivo e atitudes extremamente moralistas (mas eu a amo e ela é a melhor mãe do mundo!!!), disse, após segurar a minha orelha com força suficiente para quase arrancá-la: – Vamos à casa dela agora, e você vai pedir desculpas na minha frente e na frente da mãe dela. Depois, quando voltarmos, você vai levar uma surra. Não admito que um filho meu ofenda assim uma pessoa.

– Mãe, pelo amor de Deus! Depois peço desculpas para ela, por favor, não faça isso comigo! Pode me bater, prometo que me desculpo com ela, mas na frente de todo mundo não! – porém a essa altura eu já era arrastado pelas orelhas até a casa da menina.

Lembro que minha mãe falou com alguém no portão e pediu que chamassem a garota. Quando ela chegou, minha mãe começou o discurso. Não consigo esquecer.

– Estou aqui com o Guto porque fiquei sabendo que ele te desrespeitou de uma maneira vergonhosa e quer te pedir perdão por isso. Não vim antes porque só hoje fiquei sabendo. Não ensinei isso e não é esse o tipo de educação que ele recebe de mim, então, assim que voltarmos para casa ele vai tomar uma surra da qual não se esquecerá, para nunca mais repetir isso.

A mim restou dizer, chorando: – Perdão. – minha mãe não aceitaria que eu pedisse apenas desculpas.

A menina ficou um pouco sem graça, mas aceitou meu pedido. Não faço ideia do que ela pensou naquela hora, mas a humilhação que eu estava sofrendo era tão grande que acho que ela deve ter sentido pena de mim.

Minha mãe se despediu e voltou me puxando pela orelha até chegarmos em casa. Eu implorava para que ela não me batesse, mas já estava decretado. Naquele dia tomei uma surra que, assim como minha mãe anunciou, não esqueci. Meu corpo ficou cheio de marcas da correia e em alguns lugares até sangrou. Precisei usar band-aid® durante um tempo para esconder uma ferida, que virou uma pequena cicatriz e está no antebraço até hoje.

Fiquei com ódio dos meus irmãos por um bom tempo, da menina e da minha mãe. Foi horrível tudo o que passei. Apesar de trágica, hoje em dia essa história faz parte dos almoços de família e todo mundo ri. Minha mãe diz que se arrepende de ter sido tão dura, se justifica afirmando que fez o que pensava estar correto, reproduzindo a educação rígida que recebera dos pais. Meus irmãos jamais se desculparam, também nunca esperei por isso, até porque éramos crianças e passamos muitas outras coisas juntos, das quais lembramos e rimos.

E foi assim a primeira e única vez que tive contato com alguém que chamei de prostituta. Ficou comovido(a) com minha história ou você também é do tipo que faz chantagens?

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